(...) Sim, ela tinha esse pequeno defeito de sentir as coisas intensamente demais, ela tinha esse pequeno defeito de acreditar demais em mim. E agora mesmo que eu diga que era tudo uma grande mentira, ela apenas ri e me ignora. Hoje eu percebo que sem querer, achando que era mais esperto, me deixei perder dentro dessa bolha que ela criou em nossa volta, hoje percebo que estou perdido demais, pra achar o caminho de volta sem ela.
quarta-feira, 5 de novembro de 2008
sábado, 1 de novembro de 2008
Fuga
Você pode continuar a me ignorar. Você pode rir de mim, virar a cara e continuar a ver televisão. Sim, você pode continuar a ignorar a cama dividida ao meio, a louça separada, as noites que eu passo no sofá da sala, as madrugadas que eu chego tarde, as marcas de batom na minha camisa amassada, o perfume barato, a aliança esquecida no cinzeiro, as mensagens no celular, os telefonemas que só tocam de madrugada, pode continuar a ignorar os diferentes nomes que eu sussurro enquanto durmo. Pode ignorar meu sarcasmo, minha hostilidade com você. Sim você pode ignorar o fato de não ter mais beijo de despedida, nem desculpas para os atrasos nos almoços de família, as explicações para as marcas na camisa. Mas não pode ignorar as marcas no meu pulso, os comprimidos espalhados pelo banheiro. Se você pretende continuar a ignorar todas as minhas indiretas e pistas, eu pretendo sozinho sair desta casa, nem que seja pulando pela janela desse nosso apartamento cinza e sem graça, que um dia chegamos a chamar de paraíso.
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segunda-feira, 27 de outubro de 2008
Natal
Sim, estamos em novembro, e já posso ver na sacada de alguns apartamentos luzes piscando. Verde, amarelo, azul, vermelho, laranja, rosa, verde, amarelo. A velocidade muda, as seqüências também, mas elas continuam alegres de um modo desconcertante. Não que eu não goste de natais, ao menos quando era criança eu adorava. Para falar verdade, adorava os presentes, embrulhos grandes, outros pequenos, outros ainda com o preço, outros sem embrulho, laços amarelos, mal feitos e desengonçados. Mas eu gostava ainda assim. Só que, estamos em novembro, e todos tem essa mania irritante de se reunir em família com antecedência. E começam a montar suas arvores, a pendurar luzes brilhantes, e todas as intrigas, e discussões de família desaparecem. Penso eu, que é tudo por causa dos presentes. E as crianças? Escrevendo cartinhas coloridas para um velho gordo, barbudo e que não tem o que fazer. Que só faz algo por elas uma vez ao ano. Por isso, que hoje. Natal. Eu não vou à igreja distribuir roupas usadas para os mendigos, não vou sair até a porta para ver o coral cantar, não vou abrir as janelas para ver a neve, nem vou colocar as luzes irritantes que todos adoram, muito menos montar uma arvore ridícula no meio da minha sala, não vou pendurar as meias, nem colocar minha cartinha em baixo de um sapato velho. Hoje não tem ceia, nem televisão ligada para ver a missa. Vou passar esse dia, como todos os outros. A mesa de jantar posta para um, os cigarros e o cinzeiro no lugar do peru e das frutas. Não é que eu seja solitário, só não gosto de toda essa idéia de amor uma vez ao ano.
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domingo, 19 de outubro de 2008
Fundamental
Não chegar perto é fundamental, melhor ficarmos no escuro, melhor a gente se sentar-se à mesa ao fundo, cinema só se for para ficar lá atrás. Silêncio é fundamental, nada de troca de olhares, nem o tocar das mãos, intimidade demais é perigoso demais. E entre um gole ou outro deste café amargo, eu posso finalmente te enxergar por de trás da fumaça do seu cigarro, e não é isso que eu quero. Acho que não é você que eu quero. Não é por precaução, mas prefiro ficar de longe, assim te observo melhor, e posso ver suas manias. Não estou assustada o tempo todo, é só que às vezes você me apavora.
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quinta-feira, 4 de setembro de 2008
Champagne
Um gole, dois, três de champagne. Ela podia sentir seu cérebro dando a impressão de borbulhar. Enrolada nos lençóis da cama, ela ria, chorava, gritava e até cantava. Segurava o telefone por entre os dedos compridos, apertando-o contra o corpo, a vontade e o medo de ligar. O que falar o que não falar. Sabia que pra ela aquilo era proibido, era proibido ela sentir o que quer que fosse. Quatro, cinco goles de alguma substância que agora ela não sabia o nome, as pernas falhavam, e subia pela sua garganta uma sensação conhecida, medo. Talvez fosse angustia também, ou simplesmente um vazio.
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domingo, 27 de julho de 2008
Dialogo
Eu simplesmente não quero ter que conviver com a sua indecisão. Você diz que eu nunca soube o que eu queria, para onde eu queria ir, o que eu queria de você. Por acaso você já tentou descobrir o que você quer de você mesma? Algo além do de praxe, algo além desse apartamento no subúrbio, com seringas espalhadas, com esse cheiro de esgoto, você já tentou se perguntar o que esta fazendo aqui? No meio de todo esse lixo humano, no lugar de ter aceitado o amor que eu tentei de dar? Ele podia machucar, qualquer amor pode, mas em relação a sua vida, meu amor não causaria nem uma mínima fisgada no seu cérebro.
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quinta-feira, 10 de julho de 2008
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