sábado, 28 de março de 2009

Desnecessário

Buraco negro. Talvez seja isso que você tenha ai, no meio do peito, no lugar do coração, que deveria bater continuadamente. Puxando tudo para dentro, desse jeito as pessoas se afastam.
Talvez seja por isso que ela mantenha distância, fora do perigo. Cansada de ser sugada para dentro do seu mundinho, ela não quer mais saber o que você guarda de tão precioso lá dentro, que nunca pode mostrar.
Ela se sentia vazia, talvez porque nada fosse suficientemente bom para ela, nada durava o tempo suficiente. Ela não precisava que você a preenchesse de algo que já tinha de sobra dentro de si. Nada. O suficiente para não sentir.

domingo, 8 de março de 2009

Para pensar II

E tudo que eu andava fazendo e sendo eu não queria que ele visse nem soubesse, mas depois de pensar isso me deu um desgosto porque fui percebendo (...) que talvez eu não quisesse que ele soubesse que eu era eu, e eu era.

- caio fernando abreu.

Para pensar I

Frágil – você tem tanta vontade de chorar, tanta vontade de ir embora. Para que o protejam, para que sintam falta. Tanta vontade de viajar para bem longe, romper todos os laços, sem deixar endereço. Um dia mandará um cartão-postal de algum lugar improvável. Bali, Madagascar, Sumatra. Escreverá: penso em você. Deve ser bonito, mesmo melancólico, alguém que se foi pensar em você num lugar improvável como esse. Você se comove com o que não acontece, você sente frio e medo. Parado atrás da vidraça, olhando a chuva que, aos poucos começa a passar.


- Caio Abreu.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Anote.

Quando acabar a inspiração e o copo estiver vazio. Pode anotar o que eu digo, quando os amigos estiverem longe, as mulheres tiverem desistido de mim, e a garrafa de whisky esvaziar. Vou deixar esse corpo velho despencar sem nenhuma classe, sem me preocupar com as aparências, ou se a morte vai parecer um tanto quanto feia para alguns conhecidos. Deixo-o se desfazer, desmanchar, desmontar, degradar, desfalecer. Ah, minha cara. Quando eu estiver aqui, já bastante acostumado com a sua falta e o tédio dos dias que se passam, vou lhe fazer esse favor. Pode anotar, eu ainda morro de amor, apenas para deixá-la um pouco mais feliz.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Perda de tempo.

Faça-me um favor, cate todas as suas roupas, esvazie o guarda-roupa, as gavetas, os armários. Suma com todas as suas garrafas, seus cigarros, suas fotografias, suas coleções. Faça-me esse favor, retire todos os seus vestígios da casa, enxugue suas lagrimas, ajeite o seu lado da cama. Apague suas mensagens da minha secretaria eletrônica, esvazie os cinzeiros, os lixos. Leve embora suas roupas íntimas, meus carinhos. Leve embora seus perfumes importados, seus talheres de prata, sua louça impecavelmente limpa. Faça-me um favor, pare de tentar me agradar, leve embora seus sapatos, seus vícios, suas palavras, sua insônia, suas musicas, sua voz. Joga fora, vomita toda a porcaria de amor que eu te dei sem pedir nada em troca, leva embora a porcaria das suas mentiras, a sua hostilidade, seus sorrisos falsos. Quero que você leve embora essa sua cara de pau.






foi uma grande perda de tempo, tudo.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Caio Abreu

" Há alguns dias, Deus - ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus -, enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. E você sabe a que me refiro. Antes que pudesse me assustar e, depois do susto, hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer - eu ja estava lá dentro. E estar dentro daquilo era bom. Não me entenda mal - não aconteceu qualquer intimidade dessas que você certamente imagina. Na verdade, não aconteceu nada. Dois ou três almoços, uns silêncios. Fragmentos disso que chamamos, com aquele mesmo descuido, de "minha vida". Outros fragmentos, daquela "outra vida". De repente cruzadas ali, por puro mistério, sobre as toalhas brancas e os copos de vinho ou água, entre casquinhas de pão e cinzeiros cheios que os garçons rapidamente esvaziavam para que nos sentíssemos limpos. E nos sentíamos " (...)




- caio fernando abreu

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Estou tentando

Juro que tentei deixar a luz do sol entrar pela minha janela empoeirada como tantas vezes você pediu, juro que tentei trocar minhas plantas artificiais por algumas vivas, liguei um pouco a televisão para tirar o silencio perturbador da casa. Troquei as comidas enlatadas por algumas frutas frescas, e finalmente fiz a barba que você tanto odiava e tentei ter algumas horas de sono para tirar aquela cara de ressaca, joguei fora meus cigarros, apesar de ter quase certeza de que no final da tarde eu vou lá buscar eles de volta, e a bebida que tem aqui em casa agora é apenas água, eu juro. Estou tentando retomar minha vida, andei ligando para alguns antigos amigos, prometi a minha mãe que a visitaria antes dela morrer, e até mesmo paguei algumas dividas de jogo. Andei falando com os meus vizinhos, andei um pouco pela rua para ver as pessoas, e cheguei a um quarteirão da sua casa, só que por não saber se era cedo demais, acabei tomando o caminho de volta


Desculpe se sempre estive drogado demais para você.